Outra falácia, na realidade um sofisma, consiste em “desacreditar ” uma afirmação com base nas “qualidades” de quem a profere. Assim, chamar alguém de ateu, comunista, pedófilo, alcoólatra, neonazista, invejoso, não inutiliza o seu argumento, embora cause um impacto muito desfavorável em tudo que ele diga...
Ainda, é um sofisma quando se tenta inutilizar o argumento de alguém, defrontando a pessoa com o quê é uma aparente contradição à sua conduta. Schopenhauer aconselha quem quer usar este ardil: “Se, por exemplo, seu adversário defende o suicídio, logo gritamos: Então por que você não se enforca? Ou, se ele afirma que Berlim é uma cidade incômoda, rebatemos: “então porque não se muda?””.
No caso do suicído, a defesa (moral) de que ele possa ser feito por alguém não implica que ele “deva” ser feito por alguém!! São afirmações diferentes! No caso de achar uma cidade incômoda também não significa que se deva mudar dela, pois não se faz uma mudança de moradia com base em um único critério, muitas vezes se mora em algum lugar por precisar, não por escolher.
Ambos os exemplos de falácia acima são desleais, pois submetem o interlocutor a um constrangimento instantâneo do qual é difícil sair, já que a explicação que ele deveria dar é mais longa e difícil do que a pergunta desaforada. E parece, a quem não entende a armadilha, que a pessoa atingida está “sem saída”.
Site e livro recomendado:
• http://www.positiveatheism.org/writ/sherm3.htm
• Como vencer um debate sem precisar ter razão. Schopenhauer, A . Com excelentes comentários de Olavo de Carvalho; Rio de Janeiro: Topbooks, 1997
quinta-feira, 31 de julho de 2008
terça-feira, 29 de julho de 2008
Falácias 3
Falácia é o raciocínio aparentemente válido, mas, tecnicamente incorreto. O engano pode ocorrer sem má-fé (paralogismo) ou com má-fé, neste último caso é considerado um sofisma. No entanto, a intenção de quem argumenta foge ao escopo da lógica, estando relacionada à ética, por isso não se faz no estudo da lógica esta distinção.
Hoje vou apresentar a falácia: “falsa analogia”. Para isso utilizei um site(1) que dava como exemplo uma frase (em itálico) do filósofo Hume, do livro: “ensaio sobre o suicído”:
“Se dispor da vida humana fosse reservado apenas ao todo-poderoso e se fosse considerado uma violação do direito divino que os homens disponham de suas próprrias vidas, seria igualmente criminoso agir pela preservação da vida, quanto por sua destruição. Se evito uma pedra que está caindo sobre minha cabeça, pertubo o curso da natureza e invado o domínio particular do todo-poderoso, prolongando minha vida para além do período que pelas leis naturais da matéria e do movimento ele tinha fixado (...).
Eu não cometeria um crime se desviasse o Nilo ou o Danúbio do seu curso, se fosse capaz de realizar tal propósito. Que há de criminoso, então, em desviar alguma gotas de sangue de seus canais naturais?”
A falácia consiste em chegar a uma conclusão relacionando casos que não são comparáveis: mudar o curso dos rios a mudar o curso da vida.
Ainda, em outro site (3) achei mais exemplos interessantes e o “remédio” para eles:
Exemplos:
a) Minhas provas são sempre com consulta a todo tipo de material. Os advogados não consultam os códigos? Os médicos não consultam seus colegas e livros? Não levam as radiografias para as cirurgias? Os engenheiros, os pedreiros não consultam as plantas? Então?
b) Os empregados são como pregos: temos que martelar a cabeça para que cumpram suas funções.
c) Tomei mata-cura e fiquei bom. Tome você também.
Contra-argumentação:
Argumente que os dois objetos ou situações diferem de tal modo que a analogia se torna insustentável. Mostre que o que vale para uma situação não vale para outra.
Site consultados:
1. http://web.ufm.edu.gt/ccee/mpolanco/falacias.htm
2. http://www.cfh.ufsc.br/~conte/txt-hume-sui.pdf (trecho do texto de Hume, traduzido por Jaimir Conte)
3. http://www.pucrs.br/gpt/falacias.php
Hoje vou apresentar a falácia: “falsa analogia”. Para isso utilizei um site(1) que dava como exemplo uma frase (em itálico) do filósofo Hume, do livro: “ensaio sobre o suicído”:
“Se dispor da vida humana fosse reservado apenas ao todo-poderoso e se fosse considerado uma violação do direito divino que os homens disponham de suas próprrias vidas, seria igualmente criminoso agir pela preservação da vida, quanto por sua destruição. Se evito uma pedra que está caindo sobre minha cabeça, pertubo o curso da natureza e invado o domínio particular do todo-poderoso, prolongando minha vida para além do período que pelas leis naturais da matéria e do movimento ele tinha fixado (...).
Eu não cometeria um crime se desviasse o Nilo ou o Danúbio do seu curso, se fosse capaz de realizar tal propósito. Que há de criminoso, então, em desviar alguma gotas de sangue de seus canais naturais?”
A falácia consiste em chegar a uma conclusão relacionando casos que não são comparáveis: mudar o curso dos rios a mudar o curso da vida.
Ainda, em outro site (3) achei mais exemplos interessantes e o “remédio” para eles:
Exemplos:
a) Minhas provas são sempre com consulta a todo tipo de material. Os advogados não consultam os códigos? Os médicos não consultam seus colegas e livros? Não levam as radiografias para as cirurgias? Os engenheiros, os pedreiros não consultam as plantas? Então?
b) Os empregados são como pregos: temos que martelar a cabeça para que cumpram suas funções.
c) Tomei mata-cura e fiquei bom. Tome você também.
Contra-argumentação:
Argumente que os dois objetos ou situações diferem de tal modo que a analogia se torna insustentável. Mostre que o que vale para uma situação não vale para outra.
Site consultados:
1. http://web.ufm.edu.gt/ccee/mpolanco/falacias.htm
2. http://www.cfh.ufsc.br/~conte/txt-hume-sui.pdf (trecho do texto de Hume, traduzido por Jaimir Conte)
3. http://www.pucrs.br/gpt/falacias.php
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Falácias 2
Uma falácia é um erro de raciocínio. Há muitos argumentos falaciosos no dia-a-dia, os ouvimos e os proferimos, mas é bom saber que a lógica não os aceita como válidos.
Algumas falácias se devem à modificação da justificativa relevante para a conclusão por outra que não tem nenhuma relação com ela. Tirei alguns exemplos de livros e sites lógica*:
Apelo à piedade (Ad misericordiam)
Um aluno chorando diz que se sua nota for menor que 5, ele perde a bolsa.
Mas, a nota atribui um valor aos conhecimentos ou habilidades demonstradas pelo aluno a fim de que ele possa considerar que uma etapa de estudos esteja satisfeita. Se o professor atribuir notas indevidas, de acordo com os problemas que impediram os alunos de conseguirem suas aprovações, isso desvirtua a atribuição de notas.
Deve-se estar sempre atento a este tipo de raciocínio, porque desloca a responsabilidade de quem, de fato, a tem.
Uma vez, uma colega de faculdade argumentou com o professor que sua baixa nota se devia ao fato de ter que trabalhar de dia e estudar à noite. Ao quê ele respondeu: “Por isso sou contra os cursos noturnos!!”. Desconsiderando o caráter antidemocrático desta fala (muito peculiar a este professor, aliás), ele conseguiu dar uma resposta muito interessante!! Ele usou a justificativa dela para chegar a uma conclusão totalmente diversa da que ela defendia!
No caso dos professores, por exemplo, ao concordarem com argumentações Ad misericordiam, estão garantindo a existência de profissionais, digamos neurocirurgiões, que não conseguiriam ser aprovados durante seu curso, mas que, por terem tido bolsas do governo, estão habilitados a operar nossos cérebros!
Outra falácia interessante, muitíssimo aceita é que uma proposição é verdadeira de acordo com quem a defende:
Apelo à autoridade (Ad auctoritatem)
Ela significa:
Se Deus/um médico/Freud/Marx/Stephen Hawking/a maioria das pessoas dizem x
Logo, x é verdadeiro
O erro desta falácia é atribuir a validade da conclusão a quem a profere e não às verdadeiras causas. Pois, o defensor não pode ser, tecnicamente, a causa da validade da conclusão! O risco de aceitar tal falácia é acreditar em algo sem evidências consistentes de que é verdadeiro! Alguém poderia até ser iludido de que uma autoridade afirmou algo que nunca o fez!
Ainda há a modalidade desta falácia que ocorre quando uma autoridade em um assunto faz uma afirmação em relação a outro assunto que não é sua área de expertise, e se dá, devido ao peso desta personalidade, sua conclusão como válida.
Por exempo, Einstein tendo sido um grande físico e acreditando em Deus, isso é um argumento favorável para que também nós (que humildemente, nos consideramos menos inteligentes que Einstein) devamos seriamente considerar a existência de Deus.
Porém, o fato de ele crer ou não em Deus não é argumento para Sua existência.
Aliás eu nem tenho certeza da crença de Einstein sobre Deus, só me ocorre uma frase dele: “O Universo é inexplicável sem Deus”. O que também não diz nada sobre a opinião pessoal dele! Ainda, esta frase me lembra outro exemplo de falácia, chamada Ad ignorantiam, quando se admite uma conclusão pela falta de evidências contrárias; ou seja, como não se pode explicar a existência do Universo sem Deus, Deus existe.
As falácias são muito interessantes porque são armadilhas que podem prejudicar nossas conclusões. Embora, atualmente, não defenda que o raciocínio seja a faculdade mental mais importante do Ser, ainda acho que é prudente tentar usá-lo adequadamente.
[Parênteses: gostaria de finalizar dizendo que creio em Deus e não preciso de argumentos! ]
*Livro e sites consultados:
A serpente e a raposa, uma introdução à logica. Mary Haigth (Trad. A. U. Sobral). São Paulo: edições Loyola. 2003.
http://www.nizkor.org/features/fallacies
http://web.ufm.edu.gt/ccee/mpolanco/falacias.htm
Algumas falácias se devem à modificação da justificativa relevante para a conclusão por outra que não tem nenhuma relação com ela. Tirei alguns exemplos de livros e sites lógica*:
Apelo à piedade (Ad misericordiam)
Um aluno chorando diz que se sua nota for menor que 5, ele perde a bolsa.
Mas, a nota atribui um valor aos conhecimentos ou habilidades demonstradas pelo aluno a fim de que ele possa considerar que uma etapa de estudos esteja satisfeita. Se o professor atribuir notas indevidas, de acordo com os problemas que impediram os alunos de conseguirem suas aprovações, isso desvirtua a atribuição de notas.
Deve-se estar sempre atento a este tipo de raciocínio, porque desloca a responsabilidade de quem, de fato, a tem.
Uma vez, uma colega de faculdade argumentou com o professor que sua baixa nota se devia ao fato de ter que trabalhar de dia e estudar à noite. Ao quê ele respondeu: “Por isso sou contra os cursos noturnos!!”. Desconsiderando o caráter antidemocrático desta fala (muito peculiar a este professor, aliás), ele conseguiu dar uma resposta muito interessante!! Ele usou a justificativa dela para chegar a uma conclusão totalmente diversa da que ela defendia!
No caso dos professores, por exemplo, ao concordarem com argumentações Ad misericordiam, estão garantindo a existência de profissionais, digamos neurocirurgiões, que não conseguiriam ser aprovados durante seu curso, mas que, por terem tido bolsas do governo, estão habilitados a operar nossos cérebros!
Outra falácia interessante, muitíssimo aceita é que uma proposição é verdadeira de acordo com quem a defende:
Apelo à autoridade (Ad auctoritatem)
Ela significa:
Se Deus/um médico/Freud/Marx/Stephen Hawking/a maioria das pessoas dizem x
Logo, x é verdadeiro
O erro desta falácia é atribuir a validade da conclusão a quem a profere e não às verdadeiras causas. Pois, o defensor não pode ser, tecnicamente, a causa da validade da conclusão! O risco de aceitar tal falácia é acreditar em algo sem evidências consistentes de que é verdadeiro! Alguém poderia até ser iludido de que uma autoridade afirmou algo que nunca o fez!
Ainda há a modalidade desta falácia que ocorre quando uma autoridade em um assunto faz uma afirmação em relação a outro assunto que não é sua área de expertise, e se dá, devido ao peso desta personalidade, sua conclusão como válida.
Por exempo, Einstein tendo sido um grande físico e acreditando em Deus, isso é um argumento favorável para que também nós (que humildemente, nos consideramos menos inteligentes que Einstein) devamos seriamente considerar a existência de Deus.
Porém, o fato de ele crer ou não em Deus não é argumento para Sua existência.
Aliás eu nem tenho certeza da crença de Einstein sobre Deus, só me ocorre uma frase dele: “O Universo é inexplicável sem Deus”. O que também não diz nada sobre a opinião pessoal dele! Ainda, esta frase me lembra outro exemplo de falácia, chamada Ad ignorantiam, quando se admite uma conclusão pela falta de evidências contrárias; ou seja, como não se pode explicar a existência do Universo sem Deus, Deus existe.
As falácias são muito interessantes porque são armadilhas que podem prejudicar nossas conclusões. Embora, atualmente, não defenda que o raciocínio seja a faculdade mental mais importante do Ser, ainda acho que é prudente tentar usá-lo adequadamente.
[Parênteses: gostaria de finalizar dizendo que creio em Deus e não preciso de argumentos! ]
*Livro e sites consultados:
A serpente e a raposa, uma introdução à logica. Mary Haigth (Trad. A. U. Sobral). São Paulo: edições Loyola. 2003.
http://www.nizkor.org/features/fallacies
http://web.ufm.edu.gt/ccee/mpolanco/falacias.htm
sábado, 26 de julho de 2008
Para ler no sábado à noite
Sábado à noite... Quem está sozinho em casa, lendo esse Blog agora, deve ficar feliz e agradecido, tem um tempo todo seu! Usei um texto especial para esta noite com você. Um texto* que foi escrito para o dia dos namorados, mas serve muito bem para os sábados à noite, você vai ver! Aliás, o que é o dia dos namorados senão todos os “sábados à noite” concentrados num só dia? Enjoy it!
“Ninguém me dá mais presente no Dia dos Namorados. Ainda bem! Celebrar o amor romântico que os poetas cantam é para mim como comemorar furúnculos, hemorróidas ou gota.
Não é coincidência que o dia dos namorados seja comemorado no dia de “St Valentine”. Um médico cristão, espancado e decapitado pelos romanos em 269. Quem poderia melhor ser o Santo padroeiro dos amantes, que um homem intimamente conhecedor do sofrimento?
Mesmo aqueles que defendem o amor, admitem que ele envolve considerável penar. Palpitações, insônia, perda do apetite, alterações do humor e pensamento obsessivo são sintomas comuns. Os aflitos são convenientemente alertados nas canções de amor, “you are not sick, you’re just in love”. Como se amor fosse melhor que doença!
Um dos aspectos mais bizarros do amor é a compulsão do atingido em dividir sua “miséria” com os outros. Algumas vítimas até recorrem à magia e à bruxaria para alcançar o intento de ficar com o ser amado.
Porque as pessoas têm que sofrer com o amor é um mistério! Diz a lenda grega que os humanos eram originalmente hermafroditas e que nenhum amava o outro, pelo menos não de modo “romântico”. Até que um deus irado dividiu-os em dois, criando uma metade homem e uma metade mulher. Desde então, as pessoas sentem-se incompletas... Aí, quando elas acham sua outra metade, ou pensam que acham, experienciam a extasiante tortura que nós conhecemos como amor. Seu sofrimento é compreensível já que nunca chegam a se tornar realmente inteiras, porque sua outra metade se mostra menor do que a necessária para o ajuste perfeito.
Vários cientistas comportamentais estudaram o amor, porém não chegaram a um consenso sobre sua natureza! O psicólogo John A. Lee, que identificou 9 tipos de amor, classifica a paixão como uma psicose maníaca. Isso é óbvio, é só observar como a pessoa que ama faz coisas loucas!
A interpretação do amor como loucura tem muitos seguidores, mas há também outros pontos-de-vista. Os psicólogos Stanton Peele e Archie Brodsky defendem que o amor celebrado no dia dos namorados é um tipo de vício. Pessoas apaixonadas, observam os pesquisadores, geralmente se encaixam em dois critérios para o diagnóstico de dependentes químicos: tolerância e síndrome de abstinência. No começo, os amantes ficam satisfeitos em estarem juntos por pequenos períodos, mas a tolerância rapidamente cresce e eles admitem isso, dizendo como nas canções: “não posso ficar sem você”. Tal qual falam os drogados em heroína para suas agulhas. E quando o viciado não consegue “tomar um pico”, sente náuseas, sua e tem calafrios. Isso é abstinência. Separações longas criam uma agonia ainda maior, fazendo com que os apaixonados sintam-se na obrigação de descrever a sua dor, nos mínimos detalhes, a qualquer um que esteja por perto.
Já, o psiquiatra Joseph Wolpe diz que o amor é apenas um “transtorno mental”, como são as fobias, por exemplo. Este transtorno é refratário aos argumentos lógicos ou aos bons conselhos, pois algo aprendido emocionalmente não pode ser tratado puramente no nível intelectual. Não busque o amor no córtex, a parte racional do cérebro, diz o psiquiatra, você só irá encontrá-lo na parte mais primitiva, reptiliana do cérebro, a mesma que leva o tubarão ao furor de devorar.
Outros “experts” buscam em Darwin uma explicação para o amor. As crianças requerem cuidado e proteção constante por mais de uma década. Nas cavernas rústicas, que foram os lares de nossos ancestrais por milênios, diz a teoria, a criança cujos pais não tinham apego emocional um pelo outro, não conseguia alcançar a idade reprodutiva. Assim, o amor é um intrumento evolutivo, um artifício sórdido da natureza para assegurar a continuidade da espécie.
Por fim, outra teoria defende que o amor é uma invenção cultural. Em uma explicação que Freud amaria (desculpe o termo!), o psicólogo Lawrence Casler põe a culpa no sexo. Ou, melhor dizendo, culpa em relação ao sexo! No ponto de vista de Casler, as pessoas tem um desejo ardente por sexo, mas as sociedades ocidentais puritanas, como a nossa, fazem do dele um tabu. Assim, as pessoas que querem mesmo é sexo, tentam arranjar um pretexto para não se sentirem culpadas por isso. Aí é que entra o amor, para diminuir a culpa. Então, é o amor que vem do sexo e não o sexo que vem do amor! A revolução sexual dos anos 60 e 70 parece ter feito as pessoas menos culpadas em relação ao sexo. Se Casler está certo, agora as pessoas se apaixonam menos, pois não precisam usar essa “desculpa” para fazer sexo.
De fato, há anos que eu não vejo alguém realmente apaixonado! E eu acho isso ótimo! O quanto antes nos livrarmos da ameaça do amor romântico, melhor!! O mundo seria um lugar mais sensato, menos instável e mais ajuizado se o amor romântico fosse erradicado! É claro que eu mudaria de idéia quanto a tudo isso se alguém, qualquer um, me desse um presentinho no dia dos namorados...
* The trouble with love, Paul Chance (infelizmente não sei nada sobre ele, o texto eu tenho há muito tempo...)
“Ninguém me dá mais presente no Dia dos Namorados. Ainda bem! Celebrar o amor romântico que os poetas cantam é para mim como comemorar furúnculos, hemorróidas ou gota.
Não é coincidência que o dia dos namorados seja comemorado no dia de “St Valentine”. Um médico cristão, espancado e decapitado pelos romanos em 269. Quem poderia melhor ser o Santo padroeiro dos amantes, que um homem intimamente conhecedor do sofrimento?
Mesmo aqueles que defendem o amor, admitem que ele envolve considerável penar. Palpitações, insônia, perda do apetite, alterações do humor e pensamento obsessivo são sintomas comuns. Os aflitos são convenientemente alertados nas canções de amor, “you are not sick, you’re just in love”. Como se amor fosse melhor que doença!
Um dos aspectos mais bizarros do amor é a compulsão do atingido em dividir sua “miséria” com os outros. Algumas vítimas até recorrem à magia e à bruxaria para alcançar o intento de ficar com o ser amado.
Porque as pessoas têm que sofrer com o amor é um mistério! Diz a lenda grega que os humanos eram originalmente hermafroditas e que nenhum amava o outro, pelo menos não de modo “romântico”. Até que um deus irado dividiu-os em dois, criando uma metade homem e uma metade mulher. Desde então, as pessoas sentem-se incompletas... Aí, quando elas acham sua outra metade, ou pensam que acham, experienciam a extasiante tortura que nós conhecemos como amor. Seu sofrimento é compreensível já que nunca chegam a se tornar realmente inteiras, porque sua outra metade se mostra menor do que a necessária para o ajuste perfeito.
Vários cientistas comportamentais estudaram o amor, porém não chegaram a um consenso sobre sua natureza! O psicólogo John A. Lee, que identificou 9 tipos de amor, classifica a paixão como uma psicose maníaca. Isso é óbvio, é só observar como a pessoa que ama faz coisas loucas!
A interpretação do amor como loucura tem muitos seguidores, mas há também outros pontos-de-vista. Os psicólogos Stanton Peele e Archie Brodsky defendem que o amor celebrado no dia dos namorados é um tipo de vício. Pessoas apaixonadas, observam os pesquisadores, geralmente se encaixam em dois critérios para o diagnóstico de dependentes químicos: tolerância e síndrome de abstinência. No começo, os amantes ficam satisfeitos em estarem juntos por pequenos períodos, mas a tolerância rapidamente cresce e eles admitem isso, dizendo como nas canções: “não posso ficar sem você”. Tal qual falam os drogados em heroína para suas agulhas. E quando o viciado não consegue “tomar um pico”, sente náuseas, sua e tem calafrios. Isso é abstinência. Separações longas criam uma agonia ainda maior, fazendo com que os apaixonados sintam-se na obrigação de descrever a sua dor, nos mínimos detalhes, a qualquer um que esteja por perto.
Já, o psiquiatra Joseph Wolpe diz que o amor é apenas um “transtorno mental”, como são as fobias, por exemplo. Este transtorno é refratário aos argumentos lógicos ou aos bons conselhos, pois algo aprendido emocionalmente não pode ser tratado puramente no nível intelectual. Não busque o amor no córtex, a parte racional do cérebro, diz o psiquiatra, você só irá encontrá-lo na parte mais primitiva, reptiliana do cérebro, a mesma que leva o tubarão ao furor de devorar.
Outros “experts” buscam em Darwin uma explicação para o amor. As crianças requerem cuidado e proteção constante por mais de uma década. Nas cavernas rústicas, que foram os lares de nossos ancestrais por milênios, diz a teoria, a criança cujos pais não tinham apego emocional um pelo outro, não conseguia alcançar a idade reprodutiva. Assim, o amor é um intrumento evolutivo, um artifício sórdido da natureza para assegurar a continuidade da espécie.
Por fim, outra teoria defende que o amor é uma invenção cultural. Em uma explicação que Freud amaria (desculpe o termo!), o psicólogo Lawrence Casler põe a culpa no sexo. Ou, melhor dizendo, culpa em relação ao sexo! No ponto de vista de Casler, as pessoas tem um desejo ardente por sexo, mas as sociedades ocidentais puritanas, como a nossa, fazem do dele um tabu. Assim, as pessoas que querem mesmo é sexo, tentam arranjar um pretexto para não se sentirem culpadas por isso. Aí é que entra o amor, para diminuir a culpa. Então, é o amor que vem do sexo e não o sexo que vem do amor! A revolução sexual dos anos 60 e 70 parece ter feito as pessoas menos culpadas em relação ao sexo. Se Casler está certo, agora as pessoas se apaixonam menos, pois não precisam usar essa “desculpa” para fazer sexo.
De fato, há anos que eu não vejo alguém realmente apaixonado! E eu acho isso ótimo! O quanto antes nos livrarmos da ameaça do amor romântico, melhor!! O mundo seria um lugar mais sensato, menos instável e mais ajuizado se o amor romântico fosse erradicado! É claro que eu mudaria de idéia quanto a tudo isso se alguém, qualquer um, me desse um presentinho no dia dos namorados...
* The trouble with love, Paul Chance (infelizmente não sei nada sobre ele, o texto eu tenho há muito tempo...)
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quinta-feira, 24 de julho de 2008
Matemática e vida

A matemática é das ciências mais importantes. Para todo ser humano, desde o menos instruído, até para o mais, ela está presente diariamente. Conhecê-la, ao menos nos níveis mais elementares, dá ao indivíduo poder, e porque não dizer, cidadania. Quantas pessoas não são prejudicadas ou prejudicam porque não sabem fazer medidas, calcular áreas, doses ou juros? No entanto, assim como têm ocorrido com muitas disciplinas, por exemplo, a química, a matemática também deixou de ser ensinada como ciência aplicada. Desde que surgiu a “matemática moderna”, na década de 60, o ensino dela deixou, por exemplo, de priorizar que o aluno memorizasse a tabuada e os algoritmos das operações matemáticas para que, em vez disso, tomasse contato com as propriedades que regem tais operações. A justificativa era que o aluno entender exatamento tudo o que fazia, seria até mais importante que fazê-lo, pois “decorar” começou a ganhar um sentido pejorativo de “fazer sem entender”. No entanto, os meus anos de docência (e de estudante) me ensinaram que, em matemática pelo menos, aprender a usar deve anteceder entender os fundamentos mais abstratos desta ciência.
Assim, acredito que o indivíduo deva ser primeiro “adestrado” em matemática, para depois entender seus (belos) fundamentos. Mesmo porque haverá aqueles que nunca vão entender esses fundamentos; então que, pelo menos, saibam converter milimetros em metros ou saibam calcular os juros do seu cartão de crédito!
Existe um livro muito legal criticando a “matemática moderna” e defendendo o ensino da “antiga”. Em um trecho, o livro cita uma historinha que vou traduzir, pois ilustra bem esses comentários.
“Uma centopéia passeava prazerosamente, quando encontrou uma perereca. A perereca atônita, observou:
- Puxa, que fantático! Você tem 100 pés e mesmo assim sabe exatamente quando usar cada um!!”
Depois desta observação, a centopéia começou a pensar sobre qual pé iria colocar a seguir e ficou paralisada.”
Livro referido:
“Why Johnny can’t add”. Morris Kline. 1973 Existe um "site" com o livro todo:
http://www.marco-learningsystems.com/pages/kline/johnny.html
Kline foi professor de matemática na Universidade de Nova York, faleceu em 1992.
Assim, acredito que o indivíduo deva ser primeiro “adestrado” em matemática, para depois entender seus (belos) fundamentos. Mesmo porque haverá aqueles que nunca vão entender esses fundamentos; então que, pelo menos, saibam converter milimetros em metros ou saibam calcular os juros do seu cartão de crédito!
Existe um livro muito legal criticando a “matemática moderna” e defendendo o ensino da “antiga”. Em um trecho, o livro cita uma historinha que vou traduzir, pois ilustra bem esses comentários.
“Uma centopéia passeava prazerosamente, quando encontrou uma perereca. A perereca atônita, observou:
- Puxa, que fantático! Você tem 100 pés e mesmo assim sabe exatamente quando usar cada um!!”
Depois desta observação, a centopéia começou a pensar sobre qual pé iria colocar a seguir e ficou paralisada.”
Livro referido:
“Why Johnny can’t add”. Morris Kline. 1973 Existe um "site" com o livro todo:
http://www.marco-learningsystems.com/pages/kline/johnny.html
Kline foi professor de matemática na Universidade de Nova York, faleceu em 1992.
terça-feira, 22 de julho de 2008
Mente e OVNIs
Durante a vida, principalmente nos primeiros anos, construímos a noção de realidade. Colecionamos eventos possíveis e impossíveis e, assim, admitimos que fatos possam ou não acontecer. Ao atingirmos a fase adulta, já é bem mais difícil estarmos abertos a mudar estes conceitos. Então há indivíduos céticos ou supersticiosos, com todas as possíveis nuances.
Em geral, o cético assim é, porque não quer ser traído pela ilusão de admitir explicações falsas do mundo. Prefere a “crua realidade” a se perder num campo “metafísico” onde cada explicação é tão inconsistente quanto a outra. Já o supersticioso, crê em tudo que se lhe apresenta, tendo muita dificuldade em discernir entre o possível ou impossível, pois consentiu em abrir mão da razão para julgar as possibilidades.
Ambos têm algo de pobre, o cético porque abre mão da imaginação e o supersticioso porque só faz uso dela!
Para minhas considerações, traduzi, com adaptações, um trecho do livro escrito por um matemático (cético), de uma parte que ele discute a impossibilidade da ocorrência de OVNIs (objetos voadores não-identificados)(1).
“Os “iletrados” em matemática” são mais susceptíveis em crer em visitantes de outro planeta. Que haja planetas no Universo com vida inteligente é muitíssimo provável. Se a inteligência se desenvolveu na Terra, por que não poderia ter se desenvolvido em qualquer outro lugar? Porém, isso não quer dizer que seres de outro planeta possam nos visitar.
É só considerar os números: vamos assumir que haja um milhão de estrelas capazes de ter planetas com condições de vida, em nossa galáxia. Por que não podemos ter nenhuma evidência de vida nesses planetas? Porque nossa galáxia é imensa, tem aproximadamente o volume de 1014 anos-luz cúbicos!! Um ano-luz é a distância percorrida pela luz em um ano na velocidade de 300.000 km por segundo; ou seja, cerca 9,5 trilhões de quilometros! Se o Universo tem 10e14 anos-luz cúbicos, então cada uma destas 10e6 estrelas com possibilidade de vida ocupa o volume de 10e8 anos-luz cúbicos (10e14/10e6). Sendo a raiz cúbica de 10e8 anos-luz cúbicos, 500 anos-luz, significa que a distância entre uma destas estrelas e seu vizinho mais próximo é de, em média, 500 anos-luz!! Ou seja, aproximadamente, 10 bilhões de vezes a distância entre a Terra e a Lua! O que torna muito difícil que um fazer uma visita ao outro para um papinho...”
Quando li essa argumentação, achei-a muito prudente. Depois, me dei conta de que não era verdadeira, já que, segundo a teoria da relatividade, o “tempo” para os corpos que se movimentam em velocidades próximas às da luz, “passa” mais rápido. Não estou afirmando crer que haja tecnologia capaz de movimentar corpos nessas velocidades, estou apenas questionando se podemos ter tanta certeza de que algo não se dá, com base numa argumentação tão “crua” quanto a exposta acima. O autor desconsiderou até a relatividade do tempo, que é ciência, para relegar o juízo dos que supõe a existência de OVNIs à falta de conhecimento. (Os céticos não devem produzir grandes avanços da ciência!)
No entanto, também não se deve escancarar o cérebro para qualquer possibilidade ou explicação. Não se deve admitir que qualquer coisa possa acontecer, nem que qualquer explicação seja possível. Como aconselhou alguém: “Não abra sua mente a ponto do cérebro cair!”
Nem cético, nem crente, é imprecindível ser uma consciência criativa e crítica do mundo.
Livro referido
(1) Innumeracy – Mathematical illiteracy and its consequences. John Allen Paulos. London: Penguin books. 1988. [recomendo, muito bom]
Em geral, o cético assim é, porque não quer ser traído pela ilusão de admitir explicações falsas do mundo. Prefere a “crua realidade” a se perder num campo “metafísico” onde cada explicação é tão inconsistente quanto a outra. Já o supersticioso, crê em tudo que se lhe apresenta, tendo muita dificuldade em discernir entre o possível ou impossível, pois consentiu em abrir mão da razão para julgar as possibilidades.
Ambos têm algo de pobre, o cético porque abre mão da imaginação e o supersticioso porque só faz uso dela!
Para minhas considerações, traduzi, com adaptações, um trecho do livro escrito por um matemático (cético), de uma parte que ele discute a impossibilidade da ocorrência de OVNIs (objetos voadores não-identificados)(1).
“Os “iletrados” em matemática” são mais susceptíveis em crer em visitantes de outro planeta. Que haja planetas no Universo com vida inteligente é muitíssimo provável. Se a inteligência se desenvolveu na Terra, por que não poderia ter se desenvolvido em qualquer outro lugar? Porém, isso não quer dizer que seres de outro planeta possam nos visitar.
É só considerar os números: vamos assumir que haja um milhão de estrelas capazes de ter planetas com condições de vida, em nossa galáxia. Por que não podemos ter nenhuma evidência de vida nesses planetas? Porque nossa galáxia é imensa, tem aproximadamente o volume de 1014 anos-luz cúbicos!! Um ano-luz é a distância percorrida pela luz em um ano na velocidade de 300.000 km por segundo; ou seja, cerca 9,5 trilhões de quilometros! Se o Universo tem 10e14 anos-luz cúbicos, então cada uma destas 10e6 estrelas com possibilidade de vida ocupa o volume de 10e8 anos-luz cúbicos (10e14/10e6). Sendo a raiz cúbica de 10e8 anos-luz cúbicos, 500 anos-luz, significa que a distância entre uma destas estrelas e seu vizinho mais próximo é de, em média, 500 anos-luz!! Ou seja, aproximadamente, 10 bilhões de vezes a distância entre a Terra e a Lua! O que torna muito difícil que um fazer uma visita ao outro para um papinho...”
Quando li essa argumentação, achei-a muito prudente. Depois, me dei conta de que não era verdadeira, já que, segundo a teoria da relatividade, o “tempo” para os corpos que se movimentam em velocidades próximas às da luz, “passa” mais rápido. Não estou afirmando crer que haja tecnologia capaz de movimentar corpos nessas velocidades, estou apenas questionando se podemos ter tanta certeza de que algo não se dá, com base numa argumentação tão “crua” quanto a exposta acima. O autor desconsiderou até a relatividade do tempo, que é ciência, para relegar o juízo dos que supõe a existência de OVNIs à falta de conhecimento. (Os céticos não devem produzir grandes avanços da ciência!)
No entanto, também não se deve escancarar o cérebro para qualquer possibilidade ou explicação. Não se deve admitir que qualquer coisa possa acontecer, nem que qualquer explicação seja possível. Como aconselhou alguém: “Não abra sua mente a ponto do cérebro cair!”
Nem cético, nem crente, é imprecindível ser uma consciência criativa e crítica do mundo.
Livro referido
(1) Innumeracy – Mathematical illiteracy and its consequences. John Allen Paulos. London: Penguin books. 1988. [recomendo, muito bom]
domingo, 20 de julho de 2008
Teorias do dia-a-dia e raciocínio científico
Na vida diária, somos constantemente solicitados a aceitar ou elaborar teorias que nos ajudem a compreender o mundo e as pessoas, que possam justificar nossas ações e condutas e, mesmo, o modo que levamos a vida. Para tudo há justificativa, aparente fundamentação e cada observação do mundo mais reforça nossas teorias!
Na verdade, isso precisa acontecer! Não há ser humano, sem teorias. No entanto, devemos ter muita humildade para admitir que nossas teorias são manipulações mentais de idéias e conceitos com a finalidade tendenciosa de dar sustentação às nossas atitudes, mas que não são verdades produzidas pela razão. Pois, se fossem, não haveria possibilidade de duas opiniões.
O grave é que em muitas destas teorias há uma grande carga de preconceito que se dissemina pelo fato das pessoas não se darem conta da fragilidade técnica de tais teorias. Assim, muitos, acreditando nestas pseudoverdades, fazem julgamentos e têm comportamentos sustentados por elas, pois as introjetam e as reproduzem. Além disso, elas acreditadas como verdades podem influenciar o comportamento dos que a defendem. É como o caso de Édipo, que sempre me intrigou, será que se seu pai não tivesse acreditado na profecia e não o tivesse apartado de si, Édipo teria ficado com a mãe e o teria matado ?
Assim, gostaria de fazer uma singela reflexão sobre porque tais teorias não podem ter status de verdade (pelo menos, não, em termos científicos).
Vamos supor a “teoria” de que as mulheres e homens tem desejos essencialmente diferentes. Está tudo bem, enquanto admitamos que é uma teoria nossa, que compartilhamos com nossos amigos e verificamos pela nossa experiência que é assim! Todo mundo em certo grau faz isso. Mas devemos ter a clareza de que essa teoria não pode ser admitida como verdade. No máximo, poderíamos dizer “as mulheres que conheço têm estes desejos e os homens têm aqueles”. É claro que o impacto disso numa conversa é muito frouxo. Mas, então, o que falta para esta teoria ter status de “verdade”?
Essa é uma das discussões mais bonitas sobre ciência, ao meu ver. E por longo tempo, foi uma questão não resolvida para mim. Até que li Karl Popper, que me auxiliou a amadurecer plenamente essa resposta.
O trabalho de Popper foi traçar um critério de demarcação entre a teoria não-científica e a teoria científica. Para ele, as teorias de Marx (materialismo histórico), Freud (psicanálise) e Adler (psicologia individual) tinham características diferentes das teorias de Newton e Einstein, que as impediriam de serem consideradas científicas!!
Ele afirmou que não é o método indutivo, experimentação e observação que tornam uma teoria científica. E pontuou que as teorias acima, as quais ele não considerava científicas, tinham em comum um “grande poder de explicação”, que seria, para alguns, o maior critério para aceitá-las como científicas, mas que para ele não era suficiente. Em relação a estas teorias, disse Popper: “elas pareciam explicar praticamente tudo em seus respectivos campos. O contato com qualquer delas parecia ter o efeito de uma conversão ou revelação intelectual, abrindo os olhos para uma nova verdade, escondida dos ainda não-iniciados. Uma vez, abertos os olhos, podiam-se ver exemplos confirmadores em toda parte: o mundo estava repleto de confirmações da teoria.”
Assim, Popper discutiu a questão da fragilidade de se acatar a observação de fenômenos confirmatórios da teoria como critério de seu status científico, pois Freud e Adler fariam interpretações diferentes sobre um mesmo fato. Como ambos estariam certos? Popper acrescentou: “Não conseguia imaginar qualquer tipo de comportamento humano que ambas as teorias não fossem capazes de explicar. Era precisamente o fato de elas sempre explicarem e serem confirmadas que constituia o mais forte argumento em seu favor; no entanto, comecei a perceber, que esta força aparente era, na verdade, uma fraqueza. Porém, com a teoria de Einstein, a situação era extraordináriamente diferente. Para confirmar sua teoria, “Einstein sugeriu medir a posição de estrelas "atrás" do Sol durante um eclipse total (para ofuscar sua luz) e após o eclipse, quando o Sol ocupava outra posição. Caso a gravidade afetasse a luz, as posições das estrelas seriam deslocadas durante o eclipse, pois sua luz passaria perto do Sol (1)”. Assim, em havendo, conforme as previsões pelos cálculos de Einstein, baseados na Teoria Geral da Relatividade, um desvio de 1,75" do feixe de luz, a teoria se confirmou; mas qualquer outro resultado refutaria a teoria.
Assim, Popper deu um dos parâmetros mais importantes para distinguir entre uma teoria “não-científica” de uma verdade científica: a possibilidade de que essa teoria possa ser confirmada em condições em que poderia também ser refutada. Pois, de nada vale um bilhão de situações de confirmação de uma teoria, se não houver a possibilidade efetiva de ela ser descartada por algum tipo de observação. Assim, esta teoria de Einstein pôde ser comprovada, ou melhor dizendo, não pôde ser refutada, pela observação experimental.
Como seria Popper no dia-a-dia? Provavelmemente, bem cuidadoso!
Este tópico foi para refletir sobre uma das fragilidades das nossas “verdades intelectuais”. Às vezes é melhor admitirmos que tomamos certas atitude porque simplesmente queremos do que nos justificar com teorias irrefutáveis.
1. Do livro: Conjecturas e Refutações, de Karl Popper, 1963.
2. Utilizei a explicação de Marcelo Gleiser em vez da explicação de Popper, por estar ótima! (http://marcelogleiser.blogspot.com/)
Na verdade, isso precisa acontecer! Não há ser humano, sem teorias. No entanto, devemos ter muita humildade para admitir que nossas teorias são manipulações mentais de idéias e conceitos com a finalidade tendenciosa de dar sustentação às nossas atitudes, mas que não são verdades produzidas pela razão. Pois, se fossem, não haveria possibilidade de duas opiniões.
O grave é que em muitas destas teorias há uma grande carga de preconceito que se dissemina pelo fato das pessoas não se darem conta da fragilidade técnica de tais teorias. Assim, muitos, acreditando nestas pseudoverdades, fazem julgamentos e têm comportamentos sustentados por elas, pois as introjetam e as reproduzem. Além disso, elas acreditadas como verdades podem influenciar o comportamento dos que a defendem. É como o caso de Édipo, que sempre me intrigou, será que se seu pai não tivesse acreditado na profecia e não o tivesse apartado de si, Édipo teria ficado com a mãe e o teria matado ?
Assim, gostaria de fazer uma singela reflexão sobre porque tais teorias não podem ter status de verdade (pelo menos, não, em termos científicos).
Vamos supor a “teoria” de que as mulheres e homens tem desejos essencialmente diferentes. Está tudo bem, enquanto admitamos que é uma teoria nossa, que compartilhamos com nossos amigos e verificamos pela nossa experiência que é assim! Todo mundo em certo grau faz isso. Mas devemos ter a clareza de que essa teoria não pode ser admitida como verdade. No máximo, poderíamos dizer “as mulheres que conheço têm estes desejos e os homens têm aqueles”. É claro que o impacto disso numa conversa é muito frouxo. Mas, então, o que falta para esta teoria ter status de “verdade”?
Essa é uma das discussões mais bonitas sobre ciência, ao meu ver. E por longo tempo, foi uma questão não resolvida para mim. Até que li Karl Popper, que me auxiliou a amadurecer plenamente essa resposta.
O trabalho de Popper foi traçar um critério de demarcação entre a teoria não-científica e a teoria científica. Para ele, as teorias de Marx (materialismo histórico), Freud (psicanálise) e Adler (psicologia individual) tinham características diferentes das teorias de Newton e Einstein, que as impediriam de serem consideradas científicas!!
Ele afirmou que não é o método indutivo, experimentação e observação que tornam uma teoria científica. E pontuou que as teorias acima, as quais ele não considerava científicas, tinham em comum um “grande poder de explicação”, que seria, para alguns, o maior critério para aceitá-las como científicas, mas que para ele não era suficiente. Em relação a estas teorias, disse Popper: “elas pareciam explicar praticamente tudo em seus respectivos campos. O contato com qualquer delas parecia ter o efeito de uma conversão ou revelação intelectual, abrindo os olhos para uma nova verdade, escondida dos ainda não-iniciados. Uma vez, abertos os olhos, podiam-se ver exemplos confirmadores em toda parte: o mundo estava repleto de confirmações da teoria.”
Assim, Popper discutiu a questão da fragilidade de se acatar a observação de fenômenos confirmatórios da teoria como critério de seu status científico, pois Freud e Adler fariam interpretações diferentes sobre um mesmo fato. Como ambos estariam certos? Popper acrescentou: “Não conseguia imaginar qualquer tipo de comportamento humano que ambas as teorias não fossem capazes de explicar. Era precisamente o fato de elas sempre explicarem e serem confirmadas que constituia o mais forte argumento em seu favor; no entanto, comecei a perceber, que esta força aparente era, na verdade, uma fraqueza. Porém, com a teoria de Einstein, a situação era extraordináriamente diferente. Para confirmar sua teoria, “Einstein sugeriu medir a posição de estrelas "atrás" do Sol durante um eclipse total (para ofuscar sua luz) e após o eclipse, quando o Sol ocupava outra posição. Caso a gravidade afetasse a luz, as posições das estrelas seriam deslocadas durante o eclipse, pois sua luz passaria perto do Sol (1)”. Assim, em havendo, conforme as previsões pelos cálculos de Einstein, baseados na Teoria Geral da Relatividade, um desvio de 1,75" do feixe de luz, a teoria se confirmou; mas qualquer outro resultado refutaria a teoria.
Assim, Popper deu um dos parâmetros mais importantes para distinguir entre uma teoria “não-científica” de uma verdade científica: a possibilidade de que essa teoria possa ser confirmada em condições em que poderia também ser refutada. Pois, de nada vale um bilhão de situações de confirmação de uma teoria, se não houver a possibilidade efetiva de ela ser descartada por algum tipo de observação. Assim, esta teoria de Einstein pôde ser comprovada, ou melhor dizendo, não pôde ser refutada, pela observação experimental.
Como seria Popper no dia-a-dia? Provavelmemente, bem cuidadoso!
Este tópico foi para refletir sobre uma das fragilidades das nossas “verdades intelectuais”. Às vezes é melhor admitirmos que tomamos certas atitude porque simplesmente queremos do que nos justificar com teorias irrefutáveis.
1. Do livro: Conjecturas e Refutações, de Karl Popper, 1963.
2. Utilizei a explicação de Marcelo Gleiser em vez da explicação de Popper, por estar ótima! (http://marcelogleiser.blogspot.com/)
sábado, 19 de julho de 2008
Preconceito e generalização
O preconceito, ou seja, julgar sem fundamentar, é um dos muitos vícios de raciocínio que estamos habituados a cometer, pois o pensar do cidadão comum, no dia-a-dia, não obedece regras que visem chegar à verdade, mas apenas fornece subsídos para a rápida tomada de decisão.
Na realidade, é impossível que nos abstenhamos de fazer julgamentos a partir de um simples olhar sobre alguém. Vendo um maltrapilho se dirigindo a nós, por exemplo, pode ser inevitável que concluamos que ele nos vá pedir auxílio. Isso é um preconceito porque é um julgamento a priori sobre aquele que vemos e sua provável atitude. Assim, muitos julgamentos são baseados na vivência anterior de quem julga, ou nas informações de situações similares que ele possa ter, por exemplo, da mídia. E a mídia noticia o que é singular, não o que ocorre corriqueiramente. Assim, pode-se apontar que o primeiro erro do preconceito, enquanto julgamento, é se basear numa amostragem pequena e não aleatorizada, ou seja restrita à vivência de quem julga (portanto viciada).
Em comunhão indissociável com o preconceito estão as generalizações. Assim, é comum atribuir características a todos os negros, todas as mulheres, todos os políticos, enfim, a todos os membros de certo grupo. Com base em generalizações deste tipo, aquele que julga, simplifica a problemática e se abstém de julgar cada caso, pois que sua idéia é se livrar da questão e dotar o ser julgado da impossibilidade de ser diferente, já que suas características são o destino selado pelo seu grupo. Não é, porém, a comodidade de quem julga que me preocupa, mas a crueldade deste raciocínio que justifica uma conduta diferenciada para cada grupo, sem levar em conta que cada indivíduo pode e gostaria de ser tomado como diferente, único, singular. Um ser humano.
Na realidade, é impossível que nos abstenhamos de fazer julgamentos a partir de um simples olhar sobre alguém. Vendo um maltrapilho se dirigindo a nós, por exemplo, pode ser inevitável que concluamos que ele nos vá pedir auxílio. Isso é um preconceito porque é um julgamento a priori sobre aquele que vemos e sua provável atitude. Assim, muitos julgamentos são baseados na vivência anterior de quem julga, ou nas informações de situações similares que ele possa ter, por exemplo, da mídia. E a mídia noticia o que é singular, não o que ocorre corriqueiramente. Assim, pode-se apontar que o primeiro erro do preconceito, enquanto julgamento, é se basear numa amostragem pequena e não aleatorizada, ou seja restrita à vivência de quem julga (portanto viciada).
Em comunhão indissociável com o preconceito estão as generalizações. Assim, é comum atribuir características a todos os negros, todas as mulheres, todos os políticos, enfim, a todos os membros de certo grupo. Com base em generalizações deste tipo, aquele que julga, simplifica a problemática e se abstém de julgar cada caso, pois que sua idéia é se livrar da questão e dotar o ser julgado da impossibilidade de ser diferente, já que suas características são o destino selado pelo seu grupo. Não é, porém, a comodidade de quem julga que me preocupa, mas a crueldade deste raciocínio que justifica uma conduta diferenciada para cada grupo, sem levar em conta que cada indivíduo pode e gostaria de ser tomado como diferente, único, singular. Um ser humano.
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Auto-controle e respiração
Talvez a capacidade mais importante que possamos ter seja o domínio sobre nossa vontade. Como alguém já disse, a paixão é uma ótima senhora, mas uma péssima serva. O auto-controle talvez seja uma condição ideal, não alcançável, mas vou me deter a um pequeno aspecto dele. Por exemplo, dominar um impulso. Isso é possível, como afirmam os yoguis, pelo controle da respiração. O ato de inspirar e expirar, além de ser indispensável à sobrevivência, está muito associado ao emocional, recebe contribuição dele e retribui realimentando a mesma emoção. Perceba como num momento de angústia você contrai a musculatura abdominal e respira apenas com a parte superior dos pulmões. Isso gera uma entrada menor de ar e aumenta a angústia. De modo análogo, os padrões de respiração também se alteram com outros estados emocionais. O problema é que não nos atemos a eles e demoramos mais a sobrepujar a emoção ou o impulso que nos faz mal. Mas se, ao percebermos que nosso "emocional" está dominante, voltarmos nossa atenção para a respiração, tornando-a calma, completa e consciente, conseguimos recuperar o controle de nós mesmos.
Experimente uma vez, se nunca o fez, perceber como está respirando quando algo vai mal e faça algumas respirações profundas, abdominais. Sinta o resultado!
Experimente uma vez, se nunca o fez, perceber como está respirando quando algo vai mal e faça algumas respirações profundas, abdominais. Sinta o resultado!
domingo, 13 de julho de 2008
Falácias 1
Uma coisa aprendi com Lacan: não é preciso compreender uma questão para trabalhá-la no âmbito psicológico. Isso derrubou a minha visão do papel do intelecto na determinação das "verdades" interiores. Assim, deveríamos desenvolver a habilidade de ouvir nosso querer interior e não exigir dele argumentos para ser atendido!
Mas essa postagem não é sobre esta questão, muito mais recente para mim, dos componentes não-intelectuais, que estruturam meu Eu. Essa postagem é sobre razão, ou melhor, sobre os enganos da razão. Sobre sermos vítimas das argumentações falsas, (quem sabe até das interiores), pois não temos as técnicas para distinguir as verdadeiras das falsas. Assim, num mundo (ocidental) baseado na razão, o mínimo que deveríamos aprender é nos defender dos falsos argumentos!! Existe um livro muito interessante sobre o assunto (1) e vou reportar um trecho dele.
"Argumento ad auditores
Em geral, adota-se este estratagema quando se discute com alguém culto, diante de um auditório inculto. Assim, fazemos um ataque ao que ele diz, formulando uma objeção falsa, mas cuja validade só um conhecedor do assunto poderia captar, mas não o auditório. Aos olhos dos ouvintes, ele estará derrotado, tanto mais se nossa objeção conseguir que a afirmação do outro pareça ridícula. As pessoas são inclinadas ao riso fácil, e os que riem estão do lado daquele que fala. Para demonstrar que nossa objeção é nula, o adversário deverá entrar numa longa discussão e remontar aos princípios da ciência ou a qualquer outro recurso. Mas não é fácil encontrar um auditório interessado nisso.
Exemplo: O adversário diz: "na formação da crosta rochosa primária, a massa que mais tarde se cristalizou para formar o granito e outras rochas era líquida devido ao calor e, portanto fundida. Naquela época, a temperatura era de aproximadamente 250° C e esta massa cristalizou-se sob a superfície marítima, que a cobria". Replicamos com o argumento ad auditores, que nessa temperatura e até mesmo muito antes dos 100°C, o mar teria fervido e evaporado!! Os ouvintes riem!! Para vencer-nos, o adversário terá de demonstrar que o ponto de ebulição não depende só da temperatura, mas também da pressão atmosférica e esta, assim que apenas a metade da água dos mares tivesse evaporado, aumentaria até o ponto em que nem mesmo aos 250° poderia ocorrer a ebulição. Mas isso ele não consegue demonstrar porque para ouvintes sem conhecimentos de física, seria preciso expor um tratado!"
1. Como vencer um debate sem precisar ter razão. Schopenhauer, A . Com excelentes comentários de Olavo de Carvalho; Rio de Janeiro: Topbooks, 1997
Mas essa postagem não é sobre esta questão, muito mais recente para mim, dos componentes não-intelectuais, que estruturam meu Eu. Essa postagem é sobre razão, ou melhor, sobre os enganos da razão. Sobre sermos vítimas das argumentações falsas, (quem sabe até das interiores), pois não temos as técnicas para distinguir as verdadeiras das falsas. Assim, num mundo (ocidental) baseado na razão, o mínimo que deveríamos aprender é nos defender dos falsos argumentos!! Existe um livro muito interessante sobre o assunto (1) e vou reportar um trecho dele.
"Argumento ad auditores
Em geral, adota-se este estratagema quando se discute com alguém culto, diante de um auditório inculto. Assim, fazemos um ataque ao que ele diz, formulando uma objeção falsa, mas cuja validade só um conhecedor do assunto poderia captar, mas não o auditório. Aos olhos dos ouvintes, ele estará derrotado, tanto mais se nossa objeção conseguir que a afirmação do outro pareça ridícula. As pessoas são inclinadas ao riso fácil, e os que riem estão do lado daquele que fala. Para demonstrar que nossa objeção é nula, o adversário deverá entrar numa longa discussão e remontar aos princípios da ciência ou a qualquer outro recurso. Mas não é fácil encontrar um auditório interessado nisso.
Exemplo: O adversário diz: "na formação da crosta rochosa primária, a massa que mais tarde se cristalizou para formar o granito e outras rochas era líquida devido ao calor e, portanto fundida. Naquela época, a temperatura era de aproximadamente 250° C e esta massa cristalizou-se sob a superfície marítima, que a cobria". Replicamos com o argumento ad auditores, que nessa temperatura e até mesmo muito antes dos 100°C, o mar teria fervido e evaporado!! Os ouvintes riem!! Para vencer-nos, o adversário terá de demonstrar que o ponto de ebulição não depende só da temperatura, mas também da pressão atmosférica e esta, assim que apenas a metade da água dos mares tivesse evaporado, aumentaria até o ponto em que nem mesmo aos 250° poderia ocorrer a ebulição. Mas isso ele não consegue demonstrar porque para ouvintes sem conhecimentos de física, seria preciso expor um tratado!"
1. Como vencer um debate sem precisar ter razão. Schopenhauer, A . Com excelentes comentários de Olavo de Carvalho; Rio de Janeiro: Topbooks, 1997
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