domingo, 20 de julho de 2008

Teorias do dia-a-dia e raciocínio científico

Na vida diária, somos constantemente solicitados a aceitar ou elaborar teorias que nos ajudem a compreender o mundo e as pessoas, que possam justificar nossas ações e condutas e, mesmo, o modo que levamos a vida. Para tudo há justificativa, aparente fundamentação e cada observação do mundo mais reforça nossas teorias!

Na verdade, isso precisa acontecer! Não há ser humano, sem teorias. No entanto, devemos ter muita humildade para admitir que nossas teorias são manipulações mentais de idéias e conceitos com a finalidade tendenciosa de dar sustentação às nossas atitudes, mas que não são verdades produzidas pela razão. Pois, se fossem, não haveria possibilidade de duas opiniões.
O grave é que em muitas destas teorias há uma grande carga de preconceito que se dissemina pelo fato das pessoas não se darem conta da fragilidade técnica de tais teorias. Assim, muitos, acreditando nestas pseudoverdades, fazem julgamentos e têm comportamentos sustentados por elas, pois as introjetam e as reproduzem. Além disso, elas acreditadas como verdades podem influenciar o comportamento dos que a defendem. É como o caso de Édipo, que sempre me intrigou, será que se seu pai não tivesse acreditado na profecia e não o tivesse apartado de si, Édipo teria ficado com a mãe e o teria matado ?

Assim, gostaria de fazer uma singela reflexão sobre porque tais teorias não podem ter status de verdade (pelo menos, não, em termos científicos).
Vamos supor a “teoria” de que as mulheres e homens tem desejos essencialmente diferentes. Está tudo bem, enquanto admitamos que é uma teoria nossa, que compartilhamos com nossos amigos e verificamos pela nossa experiência que é assim! Todo mundo em certo grau faz isso. Mas devemos ter a clareza de que essa teoria não pode ser admitida como verdade. No máximo, poderíamos dizer “as mulheres que conheço têm estes desejos e os homens têm aqueles”. É claro que o impacto disso numa conversa é muito frouxo. Mas, então, o que falta para esta teoria ter status de “verdade”?
Essa é uma das discussões mais bonitas sobre ciência, ao meu ver. E por longo tempo, foi uma questão não resolvida para mim. Até que li Karl Popper, que me auxiliou a amadurecer plenamente essa resposta.
O trabalho de Popper foi traçar um critério de demarcação entre a teoria não-científica e a teoria científica. Para ele, as teorias de Marx (materialismo histórico), Freud (psicanálise) e Adler (psicologia individual) tinham características diferentes das teorias de Newton e Einstein, que as impediriam de serem consideradas científicas!!
Ele afirmou que não é o método indutivo, experimentação e observação que tornam uma teoria científica. E pontuou que as teorias acima, as quais ele não considerava científicas, tinham em comum um “grande poder de explicação”, que seria, para alguns, o maior critério para aceitá-las como científicas, mas que para ele não era suficiente. Em relação a estas teorias, disse Popper: “elas pareciam explicar praticamente tudo em seus respectivos campos. O contato com qualquer delas parecia ter o efeito de uma conversão ou revelação intelectual, abrindo os olhos para uma nova verdade, escondida dos ainda não-iniciados. Uma vez, abertos os olhos, podiam-se ver exemplos confirmadores em toda parte: o mundo estava repleto de confirmações da teoria.”
Assim, Popper discutiu a questão da fragilidade de se acatar a observação de fenômenos confirmatórios da teoria como critério de seu status científico, pois Freud e Adler fariam interpretações diferentes sobre um mesmo fato. Como ambos estariam certos? Popper acrescentou: “Não conseguia imaginar qualquer tipo de comportamento humano que ambas as teorias não fossem capazes de explicar. Era precisamente o fato de elas sempre explicarem e serem confirmadas que constituia o mais forte argumento em seu favor; no entanto, comecei a perceber, que esta força aparente era, na verdade, uma fraqueza. Porém, com a teoria de Einstein, a situação era extraordináriamente diferente. Para confirmar sua teoria, “Einstein sugeriu medir a posição de estrelas "atrás" do Sol durante um eclipse total (para ofuscar sua luz) e após o eclipse, quando o Sol ocupava outra posição. Caso a gravidade afetasse a luz, as posições das estrelas seriam deslocadas durante o eclipse, pois sua luz passaria perto do Sol (1)”. Assim, em havendo, conforme as previsões pelos cálculos de Einstein, baseados na Teoria Geral da Relatividade, um desvio de 1,75" do feixe de luz, a teoria se confirmou; mas qualquer outro resultado refutaria a teoria.

Assim, Popper deu um dos parâmetros mais importantes para distinguir entre uma teoria “não-científica” de uma verdade científica: a possibilidade de que essa teoria possa ser confirmada em condições em que poderia também ser refutada. Pois, de nada vale um bilhão de situações de confirmação de uma teoria, se não houver a possibilidade efetiva de ela ser descartada por algum tipo de observação. Assim, esta teoria de Einstein pôde ser comprovada, ou melhor dizendo, não pôde ser refutada, pela observação experimental.

Como seria Popper no dia-a-dia? Provavelmemente, bem cuidadoso!

Este tópico foi para refletir sobre uma das fragilidades das nossas “verdades intelectuais”. Às vezes é melhor admitirmos que tomamos certas atitude porque simplesmente queremos do que nos justificar com teorias irrefutáveis.

1. Do livro: Conjecturas e Refutações, de Karl Popper, 1963.
2. Utilizei a explicação de Marcelo Gleiser em vez da explicação de Popper, por estar ótima! (http://marcelogleiser.blogspot.com/)

Um comentário:

  1. Querida Sigler, assim como toda a leitura é uma releitura, assim também acontece com as diversas teorias que professamos acerca dos vários acontecimentos que nos rodeiam. Ao longo da vida, temos a bela possibilidade do amadurecimento e, com ele, a capacidade de refutarmos nossas próprias teorias. Entretanto, o mundo pode ser visto por vários ângulos diferentes e, portanto, várias teorias sobre os mesmos acontecimentos podem ser verdadeiras. A beleza nisso tudo é que temos que estar abertos para não descartarmos a nossa própria teoria ou a alheia, mas para olharmos com respeito um ao outro e tentarmos chegar a um ponto comum, onde todos possamos crescer. Beijos.

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