domingo, 13 de julho de 2008

Falácias 1

Uma coisa aprendi com Lacan: não é preciso compreender uma questão para trabalhá-la no âmbito psicológico. Isso derrubou a minha visão do papel do intelecto na determinação das "verdades" interiores. Assim, deveríamos desenvolver a habilidade de ouvir nosso querer interior e não exigir dele argumentos para ser atendido!
Mas essa postagem não é sobre esta questão, muito mais recente para mim, dos componentes não-intelectuais, que estruturam meu Eu. Essa postagem é sobre razão, ou melhor, sobre os enganos da razão. Sobre sermos vítimas das argumentações falsas, (quem sabe até das interiores), pois não temos as técnicas para distinguir as verdadeiras das falsas. Assim, num mundo (ocidental) baseado na razão, o mínimo que deveríamos aprender é nos defender dos falsos argumentos!! Existe um livro muito interessante sobre o assunto (1) e vou reportar um trecho dele.

"Argumento ad auditores
Em geral, adota-se este estratagema quando se discute com alguém culto, diante de um auditório inculto. Assim, fazemos um ataque ao que ele diz, formulando uma objeção falsa, mas cuja validade só um conhecedor do assunto poderia captar, mas não o auditório. Aos olhos dos ouvintes, ele estará derrotado, tanto mais se nossa objeção conseguir que a afirmação do outro pareça ridícula. As pessoas são inclinadas ao riso fácil, e os que riem estão do lado daquele que fala. Para demonstrar que nossa objeção é nula, o adversário deverá entrar numa longa discussão e remontar aos princípios da ciência ou a qualquer outro recurso. Mas não é fácil encontrar um auditório interessado nisso.
Exemplo: O adversário diz: "na formação da crosta rochosa primária, a massa que mais tarde se cristalizou para formar o granito e outras rochas era líquida devido ao calor e, portanto fundida. Naquela época, a temperatura era de aproximadamente 250° C e esta massa cristalizou-se sob a superfície marítima, que a cobria". Replicamos com o argumento ad auditores, que nessa temperatura e até mesmo muito antes dos 100°C, o mar teria fervido e evaporado!! Os ouvintes riem!! Para vencer-nos, o adversário terá de demonstrar que o ponto de ebulição não depende só da temperatura, mas também da pressão atmosférica e esta, assim que apenas a metade da água dos mares tivesse evaporado, aumentaria até o ponto em que nem mesmo aos 250° poderia ocorrer a ebulição. Mas isso ele não consegue demonstrar porque para ouvintes sem conhecimentos de física, seria preciso expor um tratado!"


1. Como vencer um debate sem precisar ter razão. Schopenhauer, A . Com excelentes comentários de Olavo de Carvalho; Rio de Janeiro: Topbooks, 1997

2 comentários:

  1. A gente vê muito isso em épocas de eleições. No último pleito aqui de São Paulo, em 2008, a Marta aparecia na TV dizendo que tinha construído um determinado hospital. Um minuto depois vinha o Kassab dizendo que tinha construído o mesmo hospital. Depois ainda tinha o Maluf dizendo que ele fora responsável por aquela obra, além do minhocão, a Av. Águas Espraiadas, o Anhangabaú, o MASP, o Cristo Redentor e o Elevador Lacerda.

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