terça-feira, 22 de julho de 2008

Mente e OVNIs

Durante a vida, principalmente nos primeiros anos, construímos a noção de realidade. Colecionamos eventos possíveis e impossíveis e, assim, admitimos que fatos possam ou não acontecer. Ao atingirmos a fase adulta, já é bem mais difícil estarmos abertos a mudar estes conceitos. Então há indivíduos céticos ou supersticiosos, com todas as possíveis nuances.
Em geral, o cético assim é, porque não quer ser traído pela ilusão de admitir explicações falsas do mundo. Prefere a “crua realidade” a se perder num campo “metafísico” onde cada explicação é tão inconsistente quanto a outra. Já o supersticioso, crê em tudo que se lhe apresenta, tendo muita dificuldade em discernir entre o possível ou impossível, pois consentiu em abrir mão da razão para julgar as possibilidades.
Ambos têm algo de pobre, o cético porque abre mão da imaginação e o supersticioso porque só faz uso dela!
Para minhas considerações, traduzi, com adaptações, um trecho do livro escrito por um matemático (cético), de uma parte que ele discute a impossibilidade da ocorrência de OVNIs (objetos voadores não-identificados)(1).

“Os “iletrados” em matemática” são mais susceptíveis em crer em visitantes de outro planeta. Que haja planetas no Universo com vida inteligente é muitíssimo provável. Se a inteligência se desenvolveu na Terra, por que não poderia ter se desenvolvido em qualquer outro lugar? Porém, isso não quer dizer que seres de outro planeta possam nos visitar.
É só considerar os números: vamos assumir que haja um milhão de estrelas capazes de ter planetas com condições de vida, em nossa galáxia. Por que não podemos ter nenhuma evidência de vida nesses planetas? Porque nossa galáxia é imensa, tem aproximadamente o volume de 1014 anos-luz cúbicos!! Um ano-luz é a distância percorrida pela luz em um ano na velocidade de 300.000 km por segundo; ou seja, cerca 9,5 trilhões de quilometros! Se o Universo tem 10e14 anos-luz cúbicos, então cada uma destas 10e6 estrelas com possibilidade de vida ocupa o volume de 10e8 anos-luz cúbicos (10e14/10e6). Sendo a raiz cúbica de 10e8 anos-luz cúbicos, 500 anos-luz, significa que a distância entre uma destas estrelas e seu vizinho mais próximo é de, em média, 500 anos-luz!! Ou seja, aproximadamente, 10 bilhões de vezes a distância entre a Terra e a Lua! O que torna muito difícil que um fazer uma visita ao outro para um papinho...”

Quando li essa argumentação, achei-a muito prudente. Depois, me dei conta de que não era verdadeira, já que, segundo a teoria da relatividade, o “tempo” para os corpos que se movimentam em velocidades próximas às da luz, “passa” mais rápido. Não estou afirmando crer que haja tecnologia capaz de movimentar corpos nessas velocidades, estou apenas questionando se podemos ter tanta certeza de que algo não se dá, com base numa argumentação tão “crua” quanto a exposta acima. O autor desconsiderou até a relatividade do tempo, que é ciência, para relegar o juízo dos que supõe a existência de OVNIs à falta de conhecimento. (Os céticos não devem produzir grandes avanços da ciência!)
No entanto, também não se deve escancarar o cérebro para qualquer possibilidade ou explicação. Não se deve admitir que qualquer coisa possa acontecer, nem que qualquer explicação seja possível. Como aconselhou alguém: “Não abra sua mente a ponto do cérebro cair!”
Nem cético, nem crente, é imprecindível ser uma consciência criativa e crítica do mundo.

Livro referido
(1) Innumeracy – Mathematical illiteracy and its consequences. John Allen Paulos. London: Penguin books. 1988. [recomendo, muito bom]

2 comentários:

  1. Você classifica as pessoas em apenas duas categorias(com todas as possíveis nuances), céticos e crentes e, ao mesmo tempo, diz que ambos são incapazes de ter uma consciência criativa e crítica do mundo. O que você me diz, então, de Nietszche, Dalai Lama e Gandhi? Não tinham tal consciência? Um abaço.

    ResponderExcluir
  2. Digo, não tinham (ou não tem, conforme o caso) tal consciência? Um abraço e não abaço, como postado anteriormente.

    ResponderExcluir